segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Copas

Não é o grau alcoólico de todos os motivos, nem a quantidade de bebida que me entortou durante meses e semanas seguidas. São as fugas, a angústia, dor e desconforto, tudo no mesmo lugar - que a gente tenta afofar p'ra conseguir dormir, mas não afofa e também não dorme -. Dentro dessa camiseta azul, queria acreditar que o céu é azul tanto quanto, e eu sei que de alguma forma ele é. Quando me deparei com um cansaço de acreditar em contos - de fadas ou não -, comecei a prestar atenção nas verdades e mentiras que as pessoas contam para si todos os dias, e assim seguem em frente. Também faço isso comigo, crio uma ilusão de como o bom é ruim e de como o ruim é bom. Brigo com os meus demônios internos e externos todos os dias, algumas vezes eles vencem, outras eu venço e as vezes nem um e nem outro. Desisti e cansei de remoer a raiva do meu passado, ele sendo dez anos, quatro anos, dois anos, um ano. Cansei de relembrar todos os dias as coisas desagradáveis que amargaram o meu coração. Careca de saber que eu não sei perdoar, e nunca vou e nem quero. Da mesma forma aprendi que existem coisas maiores. Acho uma merda mau humor e grosseria, admiro a quantidade de paciência que eu tenho e dou graças por tê-la. Preciso apenas de um pé fixo em cima de um chão firme, sonhos, objetivos, crenças e fé. Colocar tudo isso p'ra andar, colocar a minha vida p'ra funcionar de qualquer forma. Esquecer tudo que eu não consigo lembrar, as pessoas, hospitais e murros em portas. Esquecer a decepção. O meu coração é maior que tudo isso, é confortável e abriga todos aqueles que precisam de um ombro, um aperto de mão, um abraço, um conselho,  um ouvido, uma história, uma risada, um amigo. É o meu coração, amável, de tantas e tantas formas diferentes. É o que me faz ser como sou, de mais precioso que tenho, é ser - para alguns - pouco disso ou  - para outros - muito disso. Ainda tenho muitas histórias para contar, muitas tantas para escrever, algumas para viver e outras para sentir, e prometi que não vai ser uma vodka barata ou uma cerveja das boas que vai me fazer perder tudo isso. Perder o melhor, o pedaço apaixonável do meu ser, perder a doçura, a sensibilidade, o carisma, é me perder de mim, é não saber mais quem sou e só saber quem deixei de ser. Quando era eu quem se importava mais com a pequena flor de outono em cima do muro do que com todas as flores da primavera. E acreditava que amor de cinema existia. Que as pessoas que dizem ser meus amigos, realmente os são. Que alguém, em algum lugar, lutaria com todas as forças e e com todas as armas, por um amor, sem reclamar ou medir esforços. Quando um bilhete na cabeceira da cama me comove mais que milhões de declarações de amor. Um pedido de desculpas, um reconhecimento, uma lágrima, um elogio, um medo, um segredo. Entre tantas e tantas coisas únicas p'ra mim. Porque eu sei que a melhor parte de mim é sobre a qualidade das pequenas coisas que me constrói, sempre absolutas. Como o meu coração - ou uma parte dele -.
“Aqui é dor, aqui é amor, aqui é amor e dor:
onde um homem projeta seu perfil e pergunta atônito:
em que direção se vai?”
 

(Adélia Prado: O Coração Disparado)

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